
31/03/2026
19:19
Iniciativa contribui para qualificar políticas públicas a partir da análise da segurança urbana em territórios de maior vulnerabilidade social em Maceió.
Ação integra o Visão Alagoas 2030, parceria entre o Governo de Alagoas e o ONU-Habitat, e fortalece a política estadual Alagoas Lilás, com foco no enfrentamento à violência contra a mulher.
Atividades combinaram rodas de conversa, leitura do território e construção de propostas, produzindo evidências qualitativas para a formulação de políticas públicas mais alinhadas às vivências das mulheres.

Cidades seguras para meninas e mulheres são cidades mais seguras para todas as pessoas. Com base nesse princípio, as experiências e percepções de estudantes da rede pública de Alagoas sobre segurança urbana e violência de gênero estiveram no centro das oficinas Cidade Mulher, realizadas nos dias 17 a 19 de março, em três escolas estaduais em áreas de maior vulnerabilidade social na capital Maceió. A iniciativa estruturou um processo de escuta qualificada para compreender como o território molda as experiências de segurança no cotidiano.
As atividades fazem parte do Visão Alagoas 2030, parceria entre o Governo de Alagoas e o Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (ONU-Habitat), e têm como objetivo contribuir para o fortalecimento da Política Estadual de Enfrentamento à Violência contra a Mulher – Alagoas Lilás, iniciativa voltada à prevenção e ao enfrentamento da violência, especialmente no contexto doméstico e familiar.
Ao integrar a dimensão urbana ao debate sobre violência de gênero, a iniciativa destaca a relação entre fatores territoriais e o acesso a direitos, a mobilidade e o uso da cidade por meninas e mulheres. O trabalho desenvolvido pelo ONU-Habitat incorpora esse enfoque à política pública, analisando como elementos como infraestrutura urbana, circulação e uso dos espaços se relacionam com as condições de segurança.
“Quando a gente começou o debate, percebemos que muitas mulheres passam por diversas situações no dia a dia, principalmente em relação à segurança urbana. Falamos sobre evitar certos lugares em determinados horários, mudar rotas ou deixar de permanecer em alguns espaços”, relata Emilly Teixeira, estudante da Escola Estadual Marcos Antônio Cavalcanti, localizada no Benedito Bentes.
“Também entendemos que diferentes grupos vivenciam essas situações de formas distintas. Eu achei muito importante participar, porque é um tema que a sociedade precisa melhorar bastante, e foi muito rico ouvir as opiniões de todo mundo”, complementa.
Cidade Mulher
A metodologia Cidade Mulher é uma adaptação das Auditorias de Segurança das Mulheres, desenvolvida pelo Programa Global Cidades Mais Seguras do ONU-Habitat, e coloca essa abordagem em prática ao produzir evidências qualitativas sobre a percepção de segurança sob a ótica de gênero, considerando fatores que influenciam como as mulheres vivenciam os espaços públicos.
No Brasil, a metodologia já foi aplicada em iniciativas do ONU-Habitat em Pernambuco e São Gonçalo. Em Alagoas, sua adaptação busca apoiar a compreensão sobre como diferentes grupos vivenciam territórios com distintas dinâmicas urbanas e contextos de vulnerabilidade socioeconômica. A partir da escuta de jovens mulheres e da análise de seus deslocamentos, rotinas e experiências na cidade, as discussões realizadas nas oficinas permitem identificar padrões, sistematizar desafios e contribuir para a construção de respostas públicas mais alinhadas às realidades locais.
“A proposta foi trazer uma lente urbana para a discussão sobre violência contra a mulher, entendendo de que forma características do território influenciam a sensação de segurança, especialmente para meninas e mulheres. Quando ampliamos esse olhar, conseguimos compreender melhor como a cidade pode contribuir para proteger ou restringir direitos”, explica Paula Zacarias, coordenadora do Visão Alagoas 2030.

Leitura do território
A abordagem adotada dialoga com o conceito de segurança cidadã, que coloca as pessoas no centro das ações e busca, para além da repressão ao crime, prevenir a violência, promover direitos e fortalecer a convivência social. A partir desse enfoque, estudantes do ensino médio foram convidadas a analisar como fatores urbanos, sociais e ambientais se relacionam com suas experiências cotidianas.
A dinâmica das oficinas foi organizada em etapas que incluem sensibilização, leitura do território e construção coletiva de propostas, com o apoio de ferramentas como mapas e cartografia coletiva. Em um primeiro momento, jovens mulheres e homens participaram de rodas de conversa sobre segurança urbana, desigualdades de gênero, direito à cidade e diferentes formas de vivenciar os espaços públicos.
A participação dos homens nessa etapa foi incorporada como estratégia para promover a compreensão da violência de gênero como um problema social e coletivo, reconhecendo-a como um fenômeno associado a desigualdades estruturais e normas culturais. Essa abordagem contribuiu para ampliar o debate e fortalecer o entendimento de que o enfrentamento à violência contra a mulher também envolve mudanças de comportamento e construção coletiva de soluções.
“Foi importante envolver os meninos, porque assim conseguimos entender melhor a realidade das mulheres e refletir sobre como podemos contribuir para tornar a cidade mais segura para todos”, destaca Duan Gabriel, estudante da Escola Estadual Professora Guiomar de Almeida Peixoto, localizada na Ponta Grossa.
As demais etapas das oficinas foram realizadas apenas com a presença das jovens estudantes. A partir de dinâmicas coletivas, elas analisaram o entorno das escolas e os trajetos que percorrem no dia a dia, especialmente o caminho entre casa e escola. Questões como iluminação, presença de pessoas, circulação, uso do espaço pela comunidade, conservação e manutenção do ambiente urbano orientaram a leitura dos territórios.
Além do trabalho em sala, as participantes realizaram caminhadas exploratórias no entorno das escolas, observando de forma direta os elementos discutidos nas rodas de conversa e na cartografia coletiva. Ao final, elaboraram propostas para melhorar os espaços dos bairros e fortalecer condições de segurança e permanência, exercitando também seu protagonismo como agentes de transformação nos territórios em que vivem.
Segurança urbana e políticas públicas

Ao aproximar gênero, território e segurança urbana, as oficinas Cidade Mulher contribuem para ampliar a compreensão sobre como a violência contra a mulher também se relaciona com a forma como os espaços são organizados, mantidos e vivenciados. Ruas escuras, trajetos isolados, áreas pouco movimentadas ou marcadas por abandono, por exemplo, podem influenciar diretamente a maneira como meninas e mulheres usam a cidade, restringindo acessos, deslocamentos e oportunidades.
A iniciativa reforça a importância de incorporar as experiências das próprias jovens na formulação de respostas públicas. Mais do que ouvir percepções individuais, a abordagem busca identificar padrões, sistematizar desafios e construir propostas que apoiem ações mais sensíveis às desigualdades de gênero e às especificidades dos territórios mais vulneráveis.
“Fortalecer o enfrentamento à violência contra a mulher passa, necessariamente, por ouvir as experiências reais de meninas e mulheres nos territórios onde vivem. Iniciativas como as oficinas Cidade Mulher contribuem para qualificar nossas políticas públicas, incorporando essas vivências ao planejamento e ampliando a efetividade das ações desenvolvidas pelo Estado”, afirma a secretária de Estado da Mulher, Marília Albuquerque.
A realização das oficinas também contribui para qualificar o planejamento urbano a partir da perspectiva de gênero, ao incorporar as vivências das moradoras na análise do território e na construção de propostas para os espaços onde vivem.

“Ao aproximar o planejamento urbano das experiências reais da população, conseguimos pensar em soluções mais adequadas às dinâmicas dos territórios. As oficinas fortalecem esse processo ao trazer o olhar das jovens para a discussão sobre segurança e uso da cidade”, destaca a secretária Especial de Planejamento e Desenvolvimento Urbano da Secretaria de Estado de Transporte e Desenvolvimento Urbano (SETRAND), Andreia Estevam.
As oficinas Cidade Mulher foram realizadas como parte do apoio do Visão Alagoas 2030 à Secretaria de Estado da Mulher (SEMU) na implementação da política estadual Alagoas Lilás, com a participação das secretarias de Estado da Educação (SEDUC), de Transporte e Desenvolvimento Urbano (SETRAND) e de Governança Corporativa, que atuaram como parceiras na iniciativa.
Ao produzir evidências territoriais a partir da escuta de jovens mulheres, a iniciativa contribui para fortalecer a integração entre planejamento urbano e políticas de gênero, apoiando o Governo do Estado na formulação de respostas baseadas em evidências, participação social e abordagem territorial e contribuindo para que ninguém e nenhum lugar seja deixado para trás.

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